domingo, 9 de maio de 2010

A FAMÍLIA QUE GOSTA DE BADULAQUES



Leonardo Attuch

ISTO É

Tumão e Tuminha
O que dizer ao tira que encomenda um videogame ao chefe da máfia chinesa? Game over, meu caro

Todo pai se preocupa com aquele filho que passa horas diante de um videogame. A criança fica ali, absorta, e muitas vezes perde a sua conexão com o mundo concreto. É como se, com os olhos na tela e o joy stick na mão, migrasse da vida real para uma realidade nova, virtual, em que quase tudo é permitido. Até mesmo atirar, matar e atropelar velhinhas indefesas na calçada – num desses games, o GTA, o jogador se coloca na pele do mafioso Tommy Vercetti e sai por aí atrás de drogas e dinheiro, num sombrio mundo sem lei.

Talvez tenha sido esse o problema da família Tuma. Na semana passada, descobriu-se que o delegado Romeu Tuma Jr., secretário nacional de Justiça, era amigo íntimo de Paulo Li, o chefe da máfia chinesa e um dos maiores contrabandistas do País. Mais do que amigos, eles eram quase irmãos. A tal ponto que podiam até dividir o mesmo quarto em viagens pelo País. E, enquanto Tuma legalizava a situação de imigrantes ilegais, Li trazia da China badulaques importados para o delegado, como o seu console e seus joguinhos de Wii. Talvez nunca antes na história da humanidade, e não apenas deste país, tenha vindo à tona um caso tão chocante – em que se flagrou uma autoridade policial de alta patente demonstrando camaradagem fraterna com um criminoso notório.

Ao ser confrontado com o caso, Tuma Jr. não tinha respostas. E justificou a amizade com Paulo Li, que possuía até cartão de visita como “assessor especial” do governo, dizendo que “não é racista”. Provavelmente, quis assegurar que o tapete vermelho do Ministério da Justiça também será estendido a bandidos de outras nacionalidades: contrabandistas paraguaios, mafiosos japoneses da Yakuza e – por que não? – contraventores brasileiros.

Seu pai, o também delegado Romeu Tuma, ex-diretor do Dops, foi compreensivo e preferiu passar a mão na cabeça do filho. Disse que “amizade qualquer um tem”. Não, senador. Manter laços com contrabandistas não é recomendável a um agente da lei. Até porque pode-se confundir a realidade de um com a do outro – e o risco é misturar-se ao crime, em vez de combatê-lo.

Três anos atrás, outro filho do senador, o ex-deputado Robson Tuma, foi flagrado viajando num avião particular que estava repleto de mercadorias eletrônicas não declaradas – e o caso foi rapidamente abafado. Só que o escândalo que envolve Romeu Tuma Jr. é bem mais grave. Depois dos seus grampos com o contrabandista chinês, o secretário nacional de Justiça talvez tenha queimado sua última vida no videogame. E restou a ele uma única mensagem: game over, meu caro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário